Entre Londres e o Brasil: a escolha que quase mudou o destino de Paulo Ricardo.
Em 1983, antes de se tornar a voz de uma das maiores bandas da história do rock brasileiro, Paulo Ricardo viveu um período decisivo em Londres. Durante cerca de seis meses, ele esteve na capital inglesa acompanhando de perto a efervescência da cena musical do início dos anos 80, em um momento em que o pós-punk, a new wave e o synth-pop redesenhavam o mapa do pop mundial.
Foi nesse contexto que Paulo respondeu a um anúncio publicado no Melody Maker, uma das revistas musicais mais importantes da época. Muito antes da internet, o Melody Maker funcionava como um verdadeiro ponto de encontro da cena britânica, reunindo críticas, tendências e anúncios classificados de bandas em busca de músicos.
O anúncio era direto: uma banda inglesa procurava vocalista.
A audição em Londres
Movido pela curiosidade — e pela necessidade pessoal de viver essa experiência antes de deixar o país — Paulo compareceu à audição. O que encontrou ali era o retrato perfeito daquele momento histórico: músicos jovens, muita energia e um método totalmente orgânico de criação.
Não havia canções prontas, letras ou estruturas definidas. A proposta era simples e radical: improvisar. Um jamming ao vivo, cem por cento espontâneo. Mesmo inseguro com o inglês, Paulo decidiu se arriscar. Cantou, improvisou, encontrou seu espaço no meio do caos criativo.
O resultado foi imediato. A banda gostou. Ele foi convidado a voltar para novos ensaios. Pouco tempo depois, veio a confirmação: ele estava dentro. Paulo Ricardo havia sido escolhido como vocalista de uma banda inglesa, no coração da Londres musical de 1983.
A encruzilhada
O convite, porém, trouxe consigo uma decisão difícil. A temporada em Londres estava chegando ao fim. Já eram quase seis meses fora do Brasil, com a pressão da família e, principalmente, uma inquietação interna que crescia.
Paulo percebia que não estava feliz sendo apenas um observador da música — um crítico que escrevia sobre o sucesso dos outros. Ele queria criar, construir algo próprio. E, mais do que isso, começou a entender que talvez pudesse ser mais relevante em seu país do que tentando se firmar em uma cena estrangeira, onde seria apenas mais um entre tantos talentos.
Diante dessa encruzilhada, ele fez a escolha que mudaria tudo: recusou o convite, deixou a banda inglesa e voltou ao Brasil.
O que veio depois
O retorno não foi um retrocesso. Pelo contrário. Paulo trouxe na bagagem tudo o que havia absorvido em Londres: referências estéticas, ambição artística, linguagem urbana e uma visão clara de como o rock poderia dialogar com o pop de forma moderna e direta.
Pouco tempo depois, ao lado de Luiz Schiavon, Fernando Deluqui e P.A., nascia o RPM — uma banda que traduzia em português muitas das influências que Paulo havia vivenciado na Inglaterra, mas com identidade própria e impacto imediato no cenário brasileiro.
A banda inglesa ficou no passado, envolta em mistério. O próprio Paulo admite que até hoje sente curiosidade em saber quem aqueles músicos se tornaram. Mas a decisão de voltar ao Brasil revelou-se definitiva: sem ela, a história do RPM talvez nunca tivesse existido.
Assista ao vídeo
No vídeo abaixo, Paulo Ricardo conta essa história em primeira pessoa, com detalhes inéditos sobre a audição em Londres, o anúncio no Melody Maker e a escolha que marcou o início de uma das trajetórias mais importantes do rock nacional.
